FILOSOFIA da STOA
As Teses de Zenão e Cleanthes
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Filosofia da Stoa - 3

A tese do Deus Artífice pode ser expressa sob vários aspectos cosmológicos simultâneos:

1) Enquanto Deus produtor da física, como substância ígnea, de modo que o trabalho da força ativa é o trabalho entre corpos e causas eficientes. O pneuma, o aéter e o ígneo são variações do corpo do Théos, ao consubstanciar, por meios físicos, seu Universo; fazendo o nascimento das sementes no úmido e no quente.

2) Como pneuma pervasivo, que exerce o tônos.

3) Enquanto sustentador do Cosmos, como Tônos, força de coesão, tensão orgânica - que contém toda a Physis; ou como Hêxis, que contêm cada reino da natureza.

4) Como Hegemonikôn, orgão diretor universal. A inteligência humana é consequência dela reproduzir localmente o formato universal.

5) Enquanto lei e lógica universal final e inexorável, conforme sugerido por Herácleitos em suas sentenças sobre o Logos. Mesmo a desmesura, o crime e o sofrimento cabem num logos final universal de reparos e medidas.

6) Enquanto Logos, como Justiça e Providência; isto é, uma administração geral do universo. Veja-se que, como Justiça, o Logos tem uma efetuação laboriosa, no tempo, do Deus e seus auxiliares. O Deus (enquanto Zeus, ou Brahmá) não seria agora um vivente fora do espaço e do tempo (enquanto o Théos está fora do espaço e tempo, assim como o Brahman); não como um poder ab-soluto, ao contrário; como um poder que se dissolve (no espaço, na matéria, no tempo).

7) Enquanto Orthos Logos: sendo dado como conceito da Lógica, mas com a consequência ética de pensamento correto no sentido de se encontrar uma lógica que já está na Natureza: natureza do vivente humano, de seu conjunto natural, de seus deuses protetores. O humano observa, procura, reconhece, reafirma... Por diferença a uma lógica do sujeito transcendental, onde o humano é o sujeito da história e do conhecimento por excelência.

8) Como Heimarmêne, Encadeamento do Destino, em que a ação divina inicial dá lugar a uma série de ações por parte de deuses e humanos. Estas ações novamente são recobertas, revisadas, pela ação dos deuses sobre os humanos; e pela ação do divino sobre os deuses – num regime incessante.

 

O que é próprio dos Estóicos, como doutrina ou dogma, é que a complexidade é sempre primeira no Cosmos (e assim de modo inteiramente oposto ao materialismo do séc. XIX ocidental). A inteligência, a sensibilidade, a organização, as potências, estão sempre, desde todas as origens, com as entidades ou viventes.

O termo demiourgós originalmente significa artesão, aquele que trabalha as matérias primas. É no Timeu platônico que assume o significado de criador que concede-a-Forma; de um Deus que atualiza formas abstratas, incorpóreas. E é com esse sentido que é adotado posteriormente para o Deus da Bíblia cristã. Porém, é exatamente este sentido platônico que Zenão está fazendo reverter para aquele da oficina “materialista” do Deus Artifex. [7]

Um Deus não apenas com muito mais atividades universais que o Deus agostiniano ou tomista, mas ainda, notavelmente bem mais complexo que o Deus do panteísmo spinozista. Enquanto o Zeus heraclítico-zenoniano, como porção do Théos (o deus Pan) tem diversas funções e trabalhos em diversos setores, expressando seu logos, eventualmente sua vontade, em diversos lugares, o Deus spinozista é manifestado segundo os dois atributos conhecidos: do pensamento e da corporalidade. O pensamento é dado, cartesianamente, como substância, não como produto da ação imaginosa. A corporalidade, todavia, é destituída de sua substanciosa forma, se tornando a propriedade da extensão, tornada essência. [8]

O monismo segundo o qual os Estóicos são muitas vezes exemplificados é assim consequência desta tese teológica inicial, que se desdobra em vários aspectos e modalidades. Desde o início, a tese de uma divindade panteísta produtiva, eficiente, praticante. Se dissolve pelo universo; se ocupa, resolve conflitos; não uma filosofia do Ser divino, mas uma filosofia da Práxis universal. Nesta práxis, as ações humanas, e dos deuses, fazem parte de um Encadeamento: não há que se deter na questão grandiloquente do “livre arbítrio”, mas na consideração de um âmbito de possibilidades, em que os humanos e deuses têm uma série de opções em fazer ou não fazer, dentro de um quadro de disponibilidades iniciais. Sobre as ações de todos os viventes, o Artífice Universal refaz as suas opções, suas apostas. [9] Assim que a Heimarmêne, que é o Destino, é igualmente um desencadeamento: do Logos, de uma disposição inicial... à qual, em um Tempo, todos retornam...

 

Notas

[7] Em algumas passagens do Timeu em que Platão admite metáforas de oficina-de-artesão, como em [33.b], na qual o demiúrgo usa “um torno” para arredondar o conjunto do ser-vivo, seu material de trabalho é ainda de puras abstrações, as quais são paradeigmas [28.a]: o Número, o Mesmo, o Ser, o Outro, o Semelhante.

[41.d] Assim falou, e, voltando ao recipiente em que anteriormente tinha composto a alma do universo por meio de uma mistura, deitou nele os restos que tinha para os misturar mais ou menos da mesma maneira; porém, comparativamente à primeira mistura, esta não ficou com o mesmo teor de pureza, mas sim com um segundo ou terceiro grau. [Timeu-Crítias, Coimbra, 2011; trad., apres., e notas Rodolfo Lopes]

Depois de criar os deuses, que são imortais enquanto “ele quiser”, e de semear as almas nos astros, o demiúrgo encarrega aos deuses [42.d] a criação das três espécies corporais mortais, as aladas, as que nadam, e as que andam sobre a Terra [40.a]. Após isso, ele se mantêm exterior ao mundo criado, em seu estado de perfeição ontológica.

Os mortais, que obtém graus de imortalidade--mortalidade, na medida em que são racionais ou irracionais; na medida em que habitam o Ser-uno, ou experimentam o Devir com seus corpos... retornam a vidas mais perfeitas em seus “astros de origem” [42.b]; ou, como “negligentes, imperfeitos e dementes”, retornam ao Hades [44.b], a repetir seus hábitos.

O texto platônico da criação universal nestas passagens faz supor uma repetida mescla de temas órficos, pitagóricos, iniciáticos, os quais não seriam estranhos a seus equivalentes teosóficos orientais [cf. Mc Evilley, 2002, cap. 7] [*]. Os temas teosóficos reaparecem misturados com termos do racionalismo eleático.

[*] Orphism is the great mystery of Greek Philosophy. “Without Orphism”, a modern scholar claims, “we cannot explain Pythagoras, nor Heraclitus, nor Empedocles, and naturally not Plato and whatever was derived from him.”
[A History of Ancient Philosophy, Giovanni Reale; State Univ. N.Y. Press, 1987; vol. I, p. 15]

“Whatever was derived from him” is a vast category indeed if one thinks of the famous observation that all western philosophy was a series of footnotes to Plato. The claim seems overstated, though, in that Plato’s Orphism does not seem to have much to do with, say, his analytical approach... Plato’s Orphic side coexisted with his logical and analytical side, though they do not seem ideally compatible.

Em [32.b] o demiúrgo tem seu raro exemplo de trabalho físico sobre as substâncias do fogo, água, ar, e terra, misturando-as segundo a proporção numérica ideal, obtendo uma solidariedade amistosa [philia], para dar nascimento ao “corpo do mundo”, e a um “céu visível e tangível”.

[8] Na ética medieval católica, a pura adesão pela fé recobre o modelo teológico insípido, de um Deus sempre transcendental e absoluto. No spinozismo, a pura liberdade de ser consagra toda a ausência de finalismo e encadeamento. A noção de liberdade é elevada à categoria de um idealismo perfeito.

O Deus Pan de Spinoza, visto como notável originalidade para sua época, nem grego, nem hebreu, nem cristão, tem sua energéia ou manifestação apenas segundo o exercício de dois (ou mais) atributos co-extensivos: a extensão e o pensamento; e segundo um poder sempre “infinito”, indefinido, de liberdades nos modos ou afetações recíprocas entre seres, corporificados e dotados de “razão”, portanto de escolha, etc... Uma Divindade que se quer geométrica, dinamizada, deslizante... que entende a expressividade como puro movimento; suas inflexões, limites.

[9] O fragmento de Heracleitos [D.K. 94] “Hélios não ultrapassará seus limites; do contrário as Erinýas, auxiliaraes de Dikê, saberão encontrá-lo” [O Logos Heraclítico, Damião Berge, I.N.L., RJ, 1969], dá idéia de uma sucessão contínua de atos de revisão, ou sucessão jurídico-administrativa do Universo: mesmo o Sol poderia pretender extrapolar seus poderes; logo as Erinýas apareceriam para verificar o que está acontecendo; as Erinýas são auxiliares de Dikê, a Justiça, e Dikê é auxiliar de Zeus.